Prezados Leitores

Para este terceiro informativo escolhemos o tema ARTROSE.

O desgaste das articulações vem acometendo a humanidade desde que ela existe. A enfermidade resultante desse desgaste atinge grande parte da população após a sexta década de vida, podendo ser considerada uma ocorrência quase inevitável. 

O enigma da Esfinge ilustra bem esta observação milenar: “qual é o ser que pela manhã se desloca sobre as quatro extremidades, ao meio dia sobre duas, e no entardecer sobre três?”

A resposta é o Homem: engatinha quando bebê caminha depois sobre dois pés, e no final de sua existência, muitas vezes se vê obrigado à companhia de uma bengala.  Boa Leitura!

 

 

A Artrose é a doença mais freqüente das articulações. Ela não é privilégio da espécie humana: praticamente todos os animais vertebrados apresentam esse mesmo tipo de alteração.  As articulações da coluna vertebral são as mais freqüentemente atingidas. Radiografias de pacientes com mais de sessenta anos mostram que sinais de desgaste na coluna vertebral são quase uma constante. Mas, curiosamente, apenas uma pequena parcela dessas pessoas se queixa de dor. Já o mesmo não ocorre quando o desgaste atinge o joelho ou o quadril (articulação do fêmur com a bacia). Nessas articulações a dor e a perda da mobilidade tendem a comprometer de modo progressivo a qualidade de vida da pessoa afetada, podendo chegar a uma situação de invalidez.

Até um passado recente a artrose era aceita como uma ocorrência inevitável da “terceira idade”. O aumento da expectativa vida é uma realidade inegável dos tempos atuais. O desafio que se apresenta é proporcionar boa qualidade a esses anos de vida a mais.  O controle da artrose vem se transformando num dos grandes problemas de Saúde Pública a serem enfrentados na assistência ao idoso. Nos paises mais desenvolvidos, nos quais uma grande parcela da população já ultrapassou os sessenta anos, a artrose representa um pesado encargo financeiro para o seguro social, além do impacto humano e familiar.

Atenta a essa realidade, a Organização Mundial da Saúde instituiu o período de 2.000-2010 como a década do osso e das articulações.

fig. 2 comparação entre uma articulação normal  e com artrose

ARTROSE

A palavra vem do Grego: “ arthron “  ( articulação ) + “ ose “ ( sufixo que em medicina significa  “degeneração” ).  Simplificando, artrose é o desgaste das articulações. É um processo essencialmente mecânico que atinge inicialmente a cartilagem.  A cartilagem é a camada branca que recobre a extremidade dos ossos nos pontos de contato. 

fig. 1 cartilagem articular entre o fêmur e a bacia

É um tecido com características especiais, que tem como função principal garantir o deslizamento das superfícies em contato com o mínimo de atrito. A cartilagem é o ponto fraco da articulação. Apesar de ser um tecido especializado para absorver a fricção e os impactos, ela sofre desgaste natural. Esse desgaste é compensado por um processo contínuo de reparação.  Mas esta capacidade é lenta e limitada. O ciclo de renovação celular da cartilagem é considerado o mais lento de todo o organismo humano. Quando ocorre o desequilíbrio entre o desgaste e a regeneração, a camada de cartilagem tende a se tornar mais fina, terminando por desaparecer. Como conseqüência se estabelece o contrato direto de osso sobre osso. 

A cartilagem, por ser um tecido sem terminações nervosas, não dói.  O seu desgaste inicial é silencioso, e não produz qualquer sintoma. A dor somente vai aparecer quando parte dessa camada protetora já desapareceu. Ela sinaliza um estágio mais avançado, no qual a superfície óssea vai sendo exposta.   A dor da artrose é o resultado do atrito direto dos ossos entre si.

ARTROSE É MUITO FREQÜENTE

A artrose é o tipo de doença articular que mais afeta as populações mundiais, levando à piora da qualidade de vida de milhões de pessoas em todo o mundo. Afeta principalmente a coluna, joelhos, quadris e mãos, articulações muito importantes para a independência física, e o trabalho do ser humano.
L. Fraenkel e cols., médicos do Exército Americano, afirmam que a artrose em geral é uma causa muito importante de afastamento do trabalho e de aposentadoria precoce. Nos EUA, a artrose do joelho está presente em cerca de 6% dos adultos acima de 30 anos de idade e a artrose do quadril em 3%. Esses números aumentam muito com a idade. Antes dos 50 anos de idade, a artrose, na maioria das articulações, é maior nos homens do que nas mulheres. Após os 50 anos, as mulheres passam a ter mais artrose, especialmente, nas articulações das mãos, pés e joelhos. Na maioria dos estudos, as articulações do quadril são mais acometidas nos homens. Além de uma degeneração progressiva da cartilagem articular, surgem deformidades nos ossos, alterações dos músculos e ligamentos que desestabilizam a articulação, que se torna mais frágil, inchada e dolorida. Mas muitas pessoas que
apresentam todas essas alterações, na radiografia, não têm sintomas.
A artrose dos joelhos e quadris parece estar associada com fatores de risco diferentes da artrose da coluna e das mãos. No primeiro caso o efeito mecânico de traumatismos anteriores, devidos ao trabalho, ao esporte e aos acidentes de trânsito parece prevalecer. Já na artrose da coluna e das mãos acredita-se que existem fatores genéticos envolvidos.  Uma boa teoria é que traumas mecânicos podem levar à artrose, nas pessoas geneticamente predispostas.
Na raça negra, as alterações radiológicas das articulações com artrose são mais graves, quando comparadas com as observadas no grupo caucasiano (brancos).  Por outro lado, os afro-descendentes têm menos osteoporose e fraturas dos ossos. A densidade óssea diminuída parece ter um efeito protetor dos impactos sobre a cartilagem: o osso com osteoporose tem maior elasticidade, amortecendo e dissipando a energia mecânica, poupando assim camada cartilagínea. Constatou-se, por outro lado, que o grupo de mulheres com diagnostico estabelecido de osteoporose apresenta menor incidência de artrose de quadril.

 O excesso de peso corpóreo, além de favorecer o aparecimento da doença, também contribui para rapidez de sua progressão, principalmente, na artrose dos joelhos. 

Fonte: Arch Intern Med. 2004 Jun 28; 164(12):1299-304

A ARTROSE EM OUTRAS ESPECIÉS DE VERTEBRADOS

A artrose não é exclusiva da espécie humana. Ela afeta praticamente todas as outras espécies de vertebrados. Esse fato sugere que o desgaste articular seja um fenômeno  da evolução do esqueleto ósseo.

 Animais extintos há centenas de milhares de anos como peixes, anfíbios, répteis, inclusive dinossauros, exibem nos seus esqueletos fossilizados sinais típicos de artrose.


fig. 3  Baleia, mesmo vivendo na água, não está livre da artrose.

Um achado surpreendente é a artrose na coluna vertebral de baleias, golfinhos e botos. Apesar de viverem na água, e terem o seu peso praticamente anulado, esses animais não estão livres do desgaste articular. 

Apenas duas espécies de animais vertebrados parece não terem suas articulações desgastadas: morcegos e bichos-preguiça.

fig. 4  morcegos e  bichos-preguiça não desenvolvem artrose

Explicação: Eles passam a maior parte de suas vidas dependurados, usando a gravidade a seu favor, transformando o peso do corpo num esforço mecânico de tração continua.

Esta universalidade da artrose sugere que ela represente um antigo mecanismo biológico de reparo articular, ao invés de uma doença em seu sentido usual.

Fonte: The Merck Manual, 16th. Edition: 1327-30

 

“Bico de Papagaio”

Esta expressão muito conhecida está relacionada especialmente com a coluna vertebral. 

Bico de papagaio” é um achado radiológico em boa parte dos pacientes adultos após os quarenta anos. Realmente,  visto na radiografia o aspecto é de um  bico, mas na verdade trata-se de uma lamina de osso ( osteófito ), que vai se formando lentamente a partir das bordas das superfícies ósseas em contato.

Excepcionalmente os “bicos de papagaio”  vão provocar dor. Eles são inofensivos, exceto quando crescem muito, chegando a pressionar estruturas vizinhas, como as raízes nervosas que saem da coluna vertebral.

Os “bicos de papagaio” não são exclusivos da coluna vertebral: eles podem aparecer em qualquer articulação na fase mais avançada da artrose.

As articulações que sustentam o peso do corpo são mais atingidas pelo desgaste.

Considerando apenas a coluna lombar, os quadris e os joelhos, essa afirmação parece perfeitamente correta.

Mas se observarmos o que acontece com os tornozelos e calcanhares veremos que as coisas não são tão simples. Realmente essas articulações – que estão sujeitas a um peso ainda mais elevado -, nunca apresentam desgaste espontâneo.

Elas só vão sofrer artrose se atingidas por uma lesão prévia: fratura, ruptura de ligamentos, infecção, reumatismo, etc. Por outro lado, a artrose tão freqüente nos dedos das mãos aparece espontaneamente em pessoas que nunca exerceram trabalho manual.

O fator puramente mecânico não é suficiente para explicar a causa da artrose: existe também um mecanismo provavelmente genético envolvido

ARTROSE – PERSPECTIVAS DE TRATAMENTO

Nas ultimas décadas as pesquisas vêm mostrando um avanço significativo nos medicamentos para o tratamento da doença degenerativa das articulações.

Abandonou-se o objetivo fatalista de tratar meramente os sintomas, deixando a artrose evoluir.   Embora os antiinflamatórios e analgésicos apresentem utilidade inegável, eles não alteram e não interferem no curso progressivo da degeneração. O novo enfoque visa uma ação efetiva sobre a cartilagem, retardando a sua deterioração e estimulando os mecanismos de reparação.

Estamos na era dos “condoprotetores”, cuja eficácia terapêutica vem sendo comprovada por numerosos estudos clínicos.   Novos medicamentos como a diacereína (extrato vegetal da Cássia spp), condroitina (extrato de cartilagem bovina, suína, ou de tubarão), extratos Insaponificáveis (soja e abacate) Glicosamina (cascos de crustáceos) e a hialuronatos (extrato de crista de galo) já se encontram disponíveis para o tratamento clinico da artrose.   


É importante, contudo, deixar claro que a ação benéfica desses novos medicamentos se mostra limitada aos casos iniciais ou na fase intermediária de evolução da artrose. 

Quando o desgaste já se encontra em fase avançada, os resultados observados com essas novas drogas não tem sido animadores. Existe, portanto, uma “janela terapêutica” que não pode ser perdida.

Uma dor articular persistente, mesmo de pouca intensidade, deve ser investigada, pois ela pode representar o inicio do desgaste articular.

O diagnóstico precoce é essencial.

 

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